Tradição Secular
O Bazulaque
Manjar dos pobres, hoje património de Meinedo. Um percurso pela palavra, pela literatura e pela cronologia.
Escritos remotos, do tempo da Idade Média, já fazem referência ao Bazulaque ou Badulaque. No séc. XV designava "cabidela", no séc. XVII determinava "cosmético" e no séc. XIX tinha o sentido de "homem gordo". É, contudo, após o Terramoto de 1755, com a implementação das fábricas de lanifícios pelo Marquês de Pombal, que este manjar dos pobres ganha o sentido que hoje lhe conhecemos.
Aproveitando os férteis pastos das serranias do Centro e Norte de Portugal, desde Gouveia e Seia, passando por Tarouca e Montemuro até às zonas montanhosas de Meinedo, foi introduzida e incentivada a criação de gado ovino para fornecer lã às fábricas. Enquanto os senhores consumiam as carnes mais nobres dos anhos, deitavam ao lixo as vísceras. Os pobres aproveitavam-nas, e, com mãos hábeis, transformavam-nas em verdadeiros pitéus.
A palavra tem raízes celtas, dos Gaels, presentes na Galiza e no Norte de Portugal desde os séc. VII–VI a.C. — à semelhança do que aconteceu com a palavra "prato", que hoje designa tanto o utensílio como a comida nele servida.
Em Meinedo, Lousada, o bazulaque tem primazia na gastronomia tradicional e popular, em eventos, manjares familiares, restaurantes locais e comemorações. A Confraria do Bazulaque de Magneto é a única no país dedicada à sua preservação e divulgação.

“Quem sabe hoje em dia o que seja um badulaque? Desapareceram as freiras e com elas os récipes dos manjares divinos.”Aquilino Ribeiro — Arcas Encoiradas
Bazulaque ou Badulaque?
José Pedro Machado, no Grande Dicionário Onomástico e Etimológico da Língua Portuguesa, define: «Guisado de fígado e bofes, um estrugido de miudezas.» Identifica badulaque e bazulaque como a mesma palavra, notando que o étimo é "ainda obscuro". O primeiro é a forma erudita, de origem castelhana; o segundo, a forma popular portuguesa — o d substituído por z.
Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, no seu Elucidário, quase nos dá a receita: «Guisado de carne, cortada em miúdos, ou fressuras de carneiro com cebola, toucinho, azeite, etc.» — e nota que era prato «bem conhecido e praticado nas comunidades religiosas portuguesas.»
Aquilino Ribeiro utiliza ambos os termos. Em Jardim das Tormentas, descreve a Doroteia que «num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas.»
Eça de Queirós, ao inspirar-se na região de Baião para A Cidade e as Serras, salienta o bazulaque entre o cabrito assado num espeto de cerejeira, as trutas e o vinho verde — por ele tido como «fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo».
O manjar remonta, com esta designação, à Idade Média tardia. Nas Inquirições de 1220 já se encontram registos de impostos em géneros — marrãs, cabritos, espáduas, lombos de porco — deixando ao peão apenas a fressura e as partes menos nobres. Foram estes restos que o povo transformou numa iguaria que atravessou séculos.
“Fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.”Eça de Queirós — A Cidade e as Serras, sobre o vinho verde que acompanhava o bazulaque
A Nossa História
Séc. VII–VI a.C.
Os Gaels, uma das tribos celtas mais numerosas, chegam à Península Ibérica vindos da Europa Central. Conquistam territórios na Galiza e descem entre os rios Minho e Douro. De Ba.Zu.Lach — o homem rústico, o camponês — nascerá o nome que chegou até nós.
Séc. XV
Primeiras referências escritas ao "Badulaque" com o significado de cabidela — um guisado confeccionado nas comunidades religiosas portuguesas. D. Nuno Álvares Pereira doa ao Mosteiro de Alcobaça um grande caldeirão "in qua Castellani faciebant suos badulaques".
Séc. XVIII
Após o Terramoto de 1755, o Marquês de Pombal implementa fábricas de lanifícios. A criação de gado ovino expande-se pelas serranias do Norte. As vísceras, descartadas pelos senhores, são aproveitadas pelos pobres — nasce o bazulaque como o conhecemos.
2018
A 2 de Fevereiro, um grupo de amigos de Meinedo funda a Confraria do Bazulaque de Magneto. Realiza-se o I Capítulo de Entronização, com a presença da Federação Portuguesa de Confrarias Gastronómicas e a apresentação do traje e escapulário oficiais.
2019
II Capítulo de Entronização. A Confraria atinge 41 confrades e torna-se presença regular em cerimónias capitulares de norte a sul do país.
2022
III Capítulo e Festival do Bazulaque, reunindo confrarias de vários pontos de Portugal em Meinedo.
2024
7.ª edição do Festival do Bazulaque no Parque de Lazer Domingos Ferreira ultrapassa todas as expectativas.
2026
A Confraria celebra o seu 8.º aniversário, marca presença na BTL em Lisboa e na Aldeia dos Potes em Barcelos, levando o bazulaque de Meinedo ao palco nacional do turismo gastronómico.